O Centro Ideal
Os mantras de um centro espiritual — tradução: Archibaldo Figueira.
O CENTRO IDEAL
A Mãe
Tradução: Archibaldo Figueira
Uma vez procurada por um grupo de discípulos para autorizá-los à criação de um centro e abençoá-lo, a Mãe respondeu: Não basta apenas abrir. É preciso muita pureza de coração, a mais completa sinceridade, e total consagração ao Divino. Este é o primeiro preceito ou mantra a ser incluído no regulamento interno de qualquer organização. Isto é uma afirmação básica do espírito, a verdadeira inspiração para iniciar o trabalho e orientar a condução do processo.
O segundo mantra está incorporado na recomendação de Sri Aurobindo: “Ame a Mãe; comporte-se como se ela sempre o estivesse observando, porque em verdade ela sempre está presente”. Estas palavras devem ser mantidas brilhando, flamejando, no coração de cada um e de todos. Elas contêm a fonte e a origem da inspiração, a única fonte de todos os movimentos, coletivos ou individuais.
E a Mãe forneceu um terceiro mantra, não menos vivo nem menos urgente: “Trabalhemos da maneira que oramos, pois em verdade o trabalho é a melhor oração do corpo para o Divino.” É nele que se aprende a respeito do caminho, do processo que deve ser seguido, as habilidades necessárias para atingir nosso objetivo.
E, para orientação e compreensão final, devemos recordar as palavras de Sri Aurobindo: “Todos os problemas existenciais são essencialmente problemas de harmonia”.
Na vida, que é necessariamente corporativa (um centro significa necessariamente treinamento e realização na vida corporativa), a primeira e última necessidade é harmonia, ou seja, compreensão e união entre aqueles que participam dessa vida corporativa. Esta é uma verdade evidente por si mesma, um axioma compreendido e aceito por um e por todos. O ponto crucial, entretanto, é como alcançar a harmonia. Ela só pode ser atingida em um nível mais elevado do ser e da consciência; no nível comum e inferior, pode haver apenas um comprometimento, um equilíbrio instável, uma contraposição incerta de elementos diversos e divergentes. Além disto, é preciso ressaltar que, quanto mais elevado e profundo o nível de consciência, haverá mais amplitude e abrangência e a harmonia se tornará natural, espontânea, impecável, perfeita. E ao atingir o nível máximo, a harmonia torna-se não apenas união, mas unidade indivisível.
Esta é a meta a ser perseguida por um centro ou grupo espiritual através da dedicação e do trabalho. E também é a missão primária, primeira e principal, do campo de existência do centro. E esse trabalho pode ser feito e deste modo alcançado através da disciplina anteriormente mencionada – nosso terceiro mantra: a atitude fundamental para a realização do trabalho. Lá foi dito que o trabalho consagrado é oração do corpo. A prece da mente se expressa por palavras; a do corpo, em trabalho. O trabalho é a prece, na sua forma e dinamismo concretos, a linguagem adequada para pedir e buscar a união com o Divino. É o ritual sagrado, expressando e corporificando, no físico, na vida material, a adoração, a adesão do ser à deidade a que serve.
O trabalho ou serviço que expressa harmonização necessita, como já dissemos, basear-se em níveis de consciência que se superam. O trabalho feito como prece é a melhor maneira de promover a elevação do nível de consciência. Esta é a lição que cada integrante de um centro deve aprender desde o início, conservando-a para sempre. O indivíduo deve tentar permanentemente crescer em nível de consciência e de status e deixar o trabalho fluir, por assim dizer, de uma fonte espontânea. Quando alguém se eleva em consciência e estado de ser, sua consciência natural e inevitavelmente se expande, e a pessoa vai sentindo cada vez mais afinidade e união com os demais. Assim, o trabalho ou serviço é apenas um meio dinâmico de atingir e realizar o sentido de perfeita união de si mesmo com todos os demais.
O trabalho não existe para demonstrar ou expressar a capacidade, habilidade ou inteligência de alguém, nem é a mera execução mecânica de ações externas em determinadas obrigações, ainda que de modo consciente e meticuloso. É na verdade um rito de prece e autodedicação, adesão e entrega, à Vontade Divina, das partes mais dinâmicas e materiais do ser, ainda que dos mais indiferentes e insensíveis elementos.
E isto nos conduz ao mais importante dos mantras de um centro – o princípio principal, que Sri Aurobindo nos oferece: O verdadeiro coração de um centro é a Presença. O grupo cresce e pode se desenvolver perfeitamente em torno da Presença da Mãe e da Consciência. Do mesmo modo que o ideal para um indivíduo é estar consciente do seu ser interior e a ele relacionar harmoniosamente todas as suas partes e movimentos, assim deve ser com um grupo ou centro.
Em verdade, um grupo ou um centro pode, como um indivíduo, crescer para a Verdade viva e dinamicamente harmoniosa, desde que tenha consciência em cada momento e em todos os momentos que está na infalível Presença da Mãe Divina.
Somente assim um centro pode se converter numa divina corporificação e encarnação da Mãe Suprema, para a expressão e realização da verdade dela sobre a terra.
